Brasília/DF— A resposta do Ministério da Saúde ao Requerimento de Informação nº 6635/2025, apresentado pelo deputado federal Amom Mandel, revela um cenário alarmante: a malária avança no Amazonas enquanto o governo federal admite não ter política específica, orçamento dedicado ou estratégia estruturada para enfrentar a doença na região.
Dados oficiais mostram que Manaus registrou 35.123 casos de malária entre 2020 e 2025, com forte aceleração a partir de 2024. Apenas em 2025, até outubro, foram 7.734 casos autóctones, o maior número da série recente. O Amazonas contabilizou 50 mortes no período, sendo 19 na capital. São números que, embora acompanhados de baixa letalidade percentual, refletem uma crise sanitária persistente e previsível.
Apesar da escalada dos casos, o Ministério da Saúde admite que não existe financiamento federal específico para o combate à malária. Segundo a própria resposta, as ações são custeadas por repasses genéricos de Vigilância em Saúde, sem qualquer vinculação obrigatória à endemia amazônica. Na prática, o governo federal lava as mãos: transfere a responsabilidade para estados e municípios e se exime de liderar uma política nacional para uma doença histórica da região Norte.
O documento também evidencia a ausência de coordenação federal direta. Embora o ministério cite envio de insumos e capacitações, reconhece que não define prioridades, metas nem aplicação dos recursos, limitando-se a um papel burocrático de suporte técnico. Não há plano específico para Manaus, não há estratégia regional integrada e não há resposta proporcional à gravidade do problema.
Outro ponto crítico revelado pela fiscalização é o aumento contínuo das reincidências da doença. Manaus registrou 1.054 casos de recorrência apenas em 2025, mais que o dobro do observado em 2022. Ainda assim, o Ministério da Saúde admite que não diferencia recaída, reinfecção ou falha terapêutica, o que inviabiliza uma avaliação real da eficácia das políticas adotadas.
Mesmo diante desse cenário, o governo afirma não haver evidências conclusivas de resistência do parasita aos medicamentos utilizados, baseando-se em monitoramentos genéricos e estudos em andamento sem apresentar dados regionais robustos, atualizados ou específicos para o Amazonas que sustentem essa segurança.
Para o deputado Amom Mandel, os dados oficiais desmontam o discurso de enfrentamento. “Quando o governo admite que não há orçamento específico, não há política dedicada e não há coordenação federal, fica claro que o problema não é falta de informação. É falta de prioridade. A malária cresce onde o Estado se omite”, afirma.
O Requerimento de Informação cumpre, assim, um papel central de fiscalização: obriga o governo a reconhecer, por escrito, seus próprios limites e omissões. Os números apresentados pelo Ministério da Saúde demonstram que o combate à malária segue fragmentado, reativo e excessivamente dependente do esforço local mesmo sendo uma endemia histórica, previsível e concentrada em territórios específicos do país.
A cobrança parlamentar escancara uma contradição central: o governo federal detém os dados, reconhece o problema, mas não assume a responsabilidade política de liderar a resposta. Enquanto isso, a malária segue avançando na Amazônia.